Palestra proferida no XV Simpósio Mineiro de Oncologia

Desde suas origens, o ser humano tenta explicar a realidade e os acontecimentos transcendentais que nela têm lugar, como a vida, a morte e a enfermidade.

As primeiras civilizações e culturas humanas baseavam sua prática médica em dois pilares, que no percurso histórico desta arte caminharão unidos até à vitória no espaço científico da observação e da experimentação, que então os apartará definitivamente. São eles: um empirismo primitivo e pragmático, aplicado fundamentalmente ao uso de ervas ou remédios obtidos da natureza e uma medicina mágico-religiosa que recorria aos deuses para tentar compreender o inexplicável.

Alguns rituais são datados de aproximadamente 10.000 anos atrás, em que já se realizavam operações para retirar das pessoas o que lhes causava mal. Essas intervenções se chamavam trepanação e provocavam pequenos buracos nos crânios dos indivíduos para a saída dos espíritos que possivelmente seriam a causa de suas doenças.

O papiro de Ebers, escrito no Egito em mais ou menos 1500 a.C., é um dos mais antigos documentos médicos que nos chegaram e contém instruções para tratar todas as enfermidades conhecidas naquele tempo, desde a dor de cabeça à mordida de um crocodilo. Esta prática médica, entretanto, vinha de séculos anteriores.

Em aproximadamente, 3000 a.C., Imhotep, político e arquiteto que desenhou a pirâmide de Saqqara, foi também um grande médico. Seus conhecimentos deviam ser tão importantes para seus concidadãos que lhe valeram a promoção a Deus da medicina egípcia.

Na mitologia grega, Higia era a filha de Esculápio. Era a deusa da saúde, limpeza e sanidade. Exercia uma importante parte no culto do pai. Enquanto seu pai era mais associado diretamente com a cura, ela era associada com a prevenção da doença e a continuação da boa saúde.

A partir da época clássica a medicina torna-se parecida com o que hoje conhecemos. Em seu nascimento tem grande importância Hipócrates de Cós. Hipócrates rompe com a medicina sacerdotal insistindo que a enfermidade tem causas naturais e que portanto naturais devem ser também os tratamentos empregados para o seu combate. Saúde equivale a equilíbrio. Segundo Hipócrates, equilíbrio dos quatro humores, as substâncias fundamentais que o corpo humano contém, em paralelo aos quatro elementos básicos que compõem o universo material, ar, água, terra e fogo. Os quatro humores constituem, em proporções variadas, todas as estruturas do organismo humano. São eles: o sangue, a linfa, a bile negra e a bile amarela. Do equilíbrio destes quatro humores de suas supostas qualidades, calor, frio, umidade e secura, dependem tanto a saúde humana, como os distintos temperamentos das pessoas. A tarefa do médico consiste, portanto, em prevenir desequilíbrios destas substâncias, bem como, no caso em que desequilíbrios tenham ocorrido, em restaurar a proporção adequada de cada uma delas.

Com o crescimento de Roma, muitos médicos do mundo todo para lá se mudaram a fim de desenvolver seus estudos. Porém um merece destaque, o grego Galeno que, através da dissecação de animais, construiu um modelo anatômico que foi empregado a partir de então para se estudar por comparação o organismo humano.

No Egito, o exercício da medicina se aperfeiçoou com uma estreita ligação com a religião, afinal, os médicos atendiam aos Faraós, que eram considerados a encarnação de deuses. Dessa forma, os egípcios desenvolveram várias técnicas de tratamento de enfermidades e até emplastros feitos com vísceras de leões ou elefantes. Graças às técnicas e trabalhos desenvolvidos por esses práticos e estudiosos, temos a preservação dos corpos mumificados dos antigos faraós egípcios.

À medida que as sociedades se desenvolviam na Europa e na Ásia, os conjuntos de saberes médicos fundados em crenças iam sendo substituídos por um sistema de ordenação lógica do real. Todas as ideias gestadas desde a Grécia Antiga ao Renascimento se fundamentavam na manutenção da saúde por meio do controle dos alimentos ingeridos e da higiene. Os conhecimentos anatômicos eram limitados e havia poucos tratamentos ou cirurgias.

Os médicos baseavam seu trabalho em uma boa relação com os pacientes, combatendo as doenças menores e abrandando os sintomas das crônicas e pouco podiam fazer contra as enfermidades epidêmicas que se espalhavam pelo mundo.

A medicina medieval era uma mescla de ciência e misticismo. As ideias sobre a origem e a cura das doenças eram influenciadas não somente pelas teorias gregas e romanas seculares, mas por fatores como o destino, o pecado, o movimento dos astros.

Durante a Idade Média o grande desafio era vencer as imposições e as proibições da religião que, ao propor que o corpo humano era sagrado, impedia que houvesse dissecações e o próprio estudo das partes internas do organismo.

Somente no século XV houve a autorização para realizar as primeiras dissecações: os corpos escolhidos eram de criminosos condenados à morte. Mas alguns médicos realizavam aventuras como aguardar a execução de uma pessoa para logo em seguida roubar seus corpos. Versalius, um médico belga, roubou um esqueleto esquecido numa forca. Ao final do século XIX, os médicos franceses Bérard e Gubler sintetizaram o papel da medicina até então: “Curar poucas vezes, aliviar constantemente, consolar sempre”.

O século XIX, todavia, inaugura um modo mais científico de se exercer a medicina e, portanto, mais independente das habilidades ou das experiências daqueles que a praticam.

Com o fim das imposições religiosas, a medicina se desenvolveu e, aliada à descoberta de outras ciências como a biologia, a física, a química, além das influências ambientais, sociais e psicológicas sobre vida e a saúde humanas, temos a ciência que conhecemos atualmente.

Entre os séculos XIX e XX são elaborados três paradigma médicos: o anatomoclínico (a origem da enfermidade é a lesão), o fisiopatológico (a origem da enfermidade deve ser buscada em ‘processos’ alterados) e o etiológico (ou das causas externas da enfermidade), todos eles herdeiros do modelo científico, principalmente biológico e positivista.

Cada vez despontaram menos gênios individuais e pesquisas generalistas. Cada vez mais a investigação médica foi conduzida por equipes interdisciplinares e dedicadas a buscas específicas.

Neste século se articula a relação entre a investigação científica na área da saúde e a indústria farmacêutica. O desenvolvimento da farmacologia em nível industrial e econômico faz da medicina do século XX tributária do medicamento, o ícone da saúde.

Elege-se a estatística como técnica essencial à cientificidade da pesquisa médica.  Ao final do século, a medicina recebe a alcunha de ciência baseada na evidência e os protocolos padronizados de investigação, avalizados por estudos científicos, vão substituindo as opiniões e experiências pessoais de cada um e outorgam ao corpo de conhecimentos teóricos médicos validade global em um mundo cada vez mais interconectado.

Paralelamente, surgem as discussões ecológicas. Dos séculos XVII ao XIX, os teóricos da medicina se esforçaram na classificação dos órgãos, tecidos e enfermidades e na descoberta das leis de funcionamento dos processos fisiológicos e patológicos. Agora, diante da evidência da complexidade dos seres humanos, a medicina conclui que não há enfermidades, mas somente pessoas doentes. Neste contexto se desenvolvem os modelos de saúde e enfermidade propostos pela Organização Mundial de Saúde e que incorporam as esferas psicológica e social à biológica, como determinantes da saúde das pessoas.

Em 1978 celebra-se a Conferência Internacional sobre Atenção Primária à Saúde em Alma-Ata, em que a relevância crucial das medidas sociais e de atenção primária à saúde, como o fornecimento adequado de água potável, alimentos, vacinas e a melhora do atendimento sanitário às populações, é afirmada.

Outras conquistas técnicas devem ser mencionadas, como a transfusão de sangue, o transplante de órgãos, a genética molecular e as aplicações da física em diferentes áreas da medicina, tais como o emprego de radioisótopos, a eletroforese, a cromatografia, a espectrofotometria, o uso do laser e do microscópio eletrônico, as técnicas de ultrassom em ecografia, a tomografia axial computadorizada e a ressonância magnética. A automatização do cálculo por meio dos computadores e seus softwares também merece destaque entre as técnicas que impulsionaram a medicina no século XX.

O sepultamento do elemento mágico-religioso e a promoção da experimentação no âmbito das pesquisas médicas propicia um salto abissal entre toda a história da medicina até o século XIX e o período a ele subsequente.

Como dizia Ésquilo: “Foi Zeus que guiou os homens para os caminhos da prudência, estabelecendo como lei válida a aprendizagem pelo sofrimento.”

É a experiência que nos liberta de fechamentos e incompreensões produzidas por uma espécie de cegueira. Pertence à essência histórica do homem aprender pela experiência e as dores estão ligadas à própria essência da experiência. São justamente as instâncias negativas da experiência que nos levam a novas experiências e, portanto, ao conhecimento.

Aprender pelo sofrimento. Isto não significa somente que nos tornamos inteligentes através do dano e que somente no engano e na decepção chegamos a conhecer mais adequadamente as coisas. O que o homem aprende pelo sofrimento não é isto ou aquilo, mas a própria percepção dos limites de ser homem.

Experiência é, pois, experiência da finitude humana. É, experimentado, no sentido autêntico da palavra, que sabe que não é senhor do tempo nem do futuro, que conhece os limites de toda previsão e a insegurança de todo plano, bem como a necessidade de continuar a prever a fazer planos. Os que não conheceram a adversidade não sabem o que é a vida e não podem com ela lidar.

A medicina refere-se essencialmente à experiência de curar e seu percurso histórico à experimentação das dores e dos prazeres, da vida e da morte, de ser humano.

Apresentação em Power Point proferida em palestra no Auditório Raul Machado Horta da Faculdade de Direito da UFMG no Debate: Pelo Estado Laico, promovido pelo Centro Acadêmico de Ciências do Estado

Laicismo: O Estado laico e o Brasil

1)      Significado do termo

Laicismo (e neste mesmo sentido podemos entender como sinônimos: anti-clericalismo, anti-confessionalismo ou secularismo – nas línguas anglo-saxônicas). Opõe-se a clericalismo ou confessionalismo (tendência do poder eclesiástico a fazer sair a religião do seu âmbito para invadir e dominar o âmbito da sociedade civil e do Estado).

Duas acepções históricas:

A) Cultura leiga ou laica (emancipação da filosofia e da moral da religião – Renascimento Cultural: primazia da razão sobre o mistério) à método: não há verdades imutáveis, tudo deve ser submetido ao exame crítico e ao debate racional.

B) Estado leigo ou laico em oposição ao Estado Confessional ou Clerical (aquele que assume como sua uma determinada religião e privilegia seus fiéis em relação aos crentes de outras religiões e aos não crentes)

Não é sinônimo de irreligiosidade

2)      Estado laico – conceito

Funda-se na concepção não sagrada do poder político.

Pilares: autonomia do poder político e da sociedade civil de toda diretriz emanada do magistério eclesiástico; a separação jurídica entre Estado e Igreja; garantia da liberdade dos cidadãos perante ambos os poderes.

Não apenas salvaguarda a autonomia do poder civil de toda forma de controle exercido pelo poder religioso, mas, ao mesmo tempo, defende a autonomia das Igrejas em suas relações com o poder temporal.

3)      Origens e desenvolvimento

Raízes intelectuais: Epicuro e Marco Aurélio

No próprio Cristianismo: passagem bíblica dá origem a correntes que se opõem à confusão entre os dois poderes mesmo durante o medievo. Teoria das duas espadas que uma só mão não pode empunhar.

Desenvolvimento: transformações históricas (Renascimento Cultural, Reforma Protestante, processo de secularização, Revolução Francesa), correntes filosóficas de pensamento (Racionalismo, Iluminismo [Diderot, Voltaire, Spinoza], Liberalismo, Hegelianismo), pensadores políticos (Jonh Milton, John Locke, James Madison, Thomas Jefferson, Tocqueville) e mais recentemente Bertrand Russel, Nicola Abagnano, Robert Ingersoll e muitos outros.

Fases: a) deístas (liberalismo), b) agnósticos (democratas e radicais), c) ateus (anarquistas e socialistas).

Podemos mencionar também outras correntes anti-clericais importantes, do final do século XIX e do início do século XX: protestantes, católicos de esquerda e de direita, burgueses, operários, maçonaria

Principal batalha travada com a Igreja (ou a mais árdua): subtrair o ensino da influência do clero e inspirá-lo nos princípios racionais e científicos.

Documentos do Concílio Ecumênico do Vaticano afirmam explicitamente a autonomia dos leigos nos negócios seculares. Século XX.

Por outro lado, a maioria dos Estados reivindica princípios de laicidade, principalmente no que diz respeito à liberdade religiosa dos cidadãos.

Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 (art. 18).

Depois da 1ª Guerra Mundial os movimentos anti-clericais entram em declínio (a guerra, mudanças na religião, diminuição dos conflitos entre Estados e Igreja, aproximação em razão do anti-socialismo e anti-comunismo, problemas sociais nacionais).

“Nas sociedades mais secularizadas, como se fosse para compensar os valores sociais perdidos, surgem ideologias totalitárias que se caracterizam como novos atentados à concepção propriamente leiga da política e da cultura.”  (Bobbio)

4)      Estado Laico no Brasil

Constituição Brasileira de 1988:

“Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.

III – criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.”

Ao vedar a todos os entes federativos a manutenção de relações de “dependência” com instituições religiosas, proibiu-se a confusão oriunda entre Estado e Religião dos Estados Confessionais.

Ao vedar ao Estado a manutenção de relações de aliança com instituições religiosas, proibiu-se a influência de fundamentações religiosas nos rumos políticos e jurídicos da nação.

Ao vedar o estabelecimento e a subvenção de cultos ou instituições religiosas pelo Estado, proibiu-se a adoção de uma religião.

Ao vedar o embaraço a cultos e instituições religiosas, o dispositivo constitucional ao mesmo tempo vedou o estabelecimento de privilégios a qualquer religião e/ou não religião.

Ao vedar a criação de distinções ou preferências de brasileiros entre si, proibiu-se o estabelecimento de privilégios (ou seja, vantagens abusivas, arbitrárias) entre as diversas religiões entre si.

5)      Conclusões

O laicismo não é uma particular filosofia ou ideologia, mas o único método de convivência de todas as filosofias e ideologias existentes e possíveis.

Guido Calogero:

“Não ter a pretensão de possuir a verdade mais do que qualquer outro possa ter a pretensão de possuí-la. Este é o princípio fundamental do laicismo.”

Cartoon sobre religião e poder político

Piada americana sobre a interferência da religião no poder político.

O tempo é a constante maior na vida dos homens. Toda a nossa vida é determinada pelo tempo. E, por isso mesmo, o tempo sempre foi uma das grandes questões da filosofia. O que é o tempo, como viver bem com a passagem do tempo, o que esperar para além do tempo são algumas das questões que os filósofos sempre enfrentaram.

Heiddegger dizia que exatamente por se saber sujeito ao tempo, o homem vive em constante angústia. A cada segundo a partir de nosso nascimento sentimos, cada vez mais, a presença inevitável do tempo: suas marcas em nossos corpos, suas garras em nossas vidas. E, por isso, estamos sempre angustiados com o passar do tempo, com a proximidade da morte.

Se é assim de fato, talvez devamos adotar uma postura mais impassível diante do tempo, como sugeriam os estóicos.

Para os estóicos, o homem deve se preocupar e se ocupar apenas das coisas que com sua vontade pode modificar. Ora, não tem sentido se angustiar com algo que não podemos mudar por mais que desejemos. Então, para que desejar algo que não se pode fazer nada para ter? Tal desejo é somente uma perda de tempo e contradiz a si mesmo. Quero mais tempo, mas não posso ter, então perco meu tempo desejando e querendo mais tempo. Por que?

Os estóicos nos aconselham a desejar o que podemos agir para conseguir e, desta forma, aproveitaremos bem todo o tempo que tivermos.

Desta maneira, aconselha Epicuro sobre o tempo:

“O passado não nos pertence a não ser como recordação. Se sentes compelido a voltar ao passado é preferível que olhe apenas para o que te traz felicidade, pois o que foi não pode ser mudado e reviver constantemente dores já vividas não lhe fará bem algum. Quanto ao futuro não te esqueças que ele não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso. Assim, não somos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda certeza, nem a nos desesperarmos como se ele não viesse jamais.”

Sobre a morte ele aconselha:

“Acostuma-te à idéia de que a morte para nós não é nada. Porque quando estamos vivos, é a morte que não está presente. Quando estamos mortos, nós é quem não estamos presentes. A morte, então, não significa nada para nós, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para os vivos ela não existe e os mortos já não estão mais aqui para senti-la.

Por isso, o sábio não desdenha a vida e nem teme a morte, para ele viver não é um fardo e morrer não é um mal, pois não vive na espera da morte. Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de tempo bem vivido, ainda que breve.”

Vida e morte são as duas faces inseparáveis da existência humana. Por isso, para os estóicos, viver é aprender a morrer. E em que consiste este aprendizado? Ora, em viver o presente da melhor forma possível. Nem voltar eternamente sobre os mesmos erros e nos afligirmos sem necessidade com o que não pode ser mudado. Nem antecipar constantemente nosso destino comum sofrendo agora com aquilo que um dia será nossa realidade inevitável.

Para que queremos mais tempo se nem mesmo somos capazes de aproveitar bem o tempo que temos? Mais tempo para quem está sempre aflito com o futuro, de fato não faz diferença, pois esta pessoa consumirá todo este tempo em angústias desnecessárias, sem realizar nada de bom, sem desfrutar aqueles momentos.

Não podemos mudar o que foi, não podemos saber o que será, mas podemos desfrutar intensamente tudo o que estamos vivendo aqui e agora. Podemos desfrutar da companhia de nossos amigos, de nossos amores e de nossos familiares; podemos nos alegrar com um filme, com uma história, com um livro ou simplesmente com uma conversa; podemos nos sentir realizados com algo que sabemos fazer ou com algo que fizemos bem feito; podemos, enfim, escolher viver.

As sociedades ocidentais são individualistas. A aprovação coletiva não determina mais nossas escolhas. A opinião da minoria é tão relevante quanto a da maioria. Podemos ser, cada um de nós, o que quisermos. Não há apenas um caminho, definido antes de nascermos, que acompanha gerações e gerações. Não temos mais de ser como os nossos pais. Como bem identificou Durkheim, a diferenciação faz com que os vínculos sociais não se formem mais pela igualdade quase absoluta de pensamentos e ações, mas pela interdependência dos diferentes e singulares indivíduos.

Outro dia, contudo, o comentário de um colega me fez rever esta afirmação. Ele me dizia que vivemos na era do marketing. Antes somente as empresas faziam propaganda de si mesmas. Hoje todos se preocupam em vender uma boa imagem de si mesmos. Homens e mulheres obcecados com a aparência. Famílias que colocam faixas nas ruas para propagandear o sucesso de seus filhos e, indiretamente, o seu próprio desempenho. Verdadeiros currículos no final dos emails criam a imagem de competência que queremos passar.

"Eu não sou eu, nem sou outro, sou qualquer coisa de intermédio." Mário de Sá Carneiro

O outro continua a ser nossa medida. É ele quem julga se somos bons ou maus, bem ou mal sucedidos, desejáveis ou indesejáveis. Apesar da individualização, a sociedade, bem ou mal, ainda tem um peso enorme na formação de nossa personalidade. É na interação com o outro que surge o eu. Não somos exclusivamente produtos do meio, mas a família, os amigos, as escolas, os grupos profissionais, enfim, as relações que formamos com os outros, ao longo de nossa jornada, contribuem muito para que nos tornemos o que somos.

Essencial, também, é sabermos aproveitar o presente e saborear cada passo dado, cada pequena vitória alcançada. Se devemos estar sempre em busca de novas conquistas, não podemos perder de vista que o novo plano inicia-se porque um anterior objetivo se tornou realidade.

A realização de um ideal deve ser reconhecida e apreciada no presente, pois senão corremos o risco de estarmos sempre infelizes ou profundamente insatisfeitos. Sempre em busca, de sonho em sonho, e nunca atentos aos contentamentos e às conquistas do cotidiano.

Bem sabemos que o tempo está contra nós e que se os dias são mal vividos em breve nos farão imensa falta. Carpe diem. Viva e aproveite bem o presente. Faça planos, mas desfrute cada passo de sua realização. Tenha objetivos, mas reconheça cada conquista durante a jornada, seja ela pequena ou grande, ordinária ou extraordinária, pois, como define Aristóteles a felicidade é a realização de si, é experimentar a concretização dos fins da existência humana.

Fazer planos é essencial às nossas vidas. Alguém sem planos é alguém sem conquistas. Ao planejar estamos em busca, em construção de sonhos, realizações, objetivos. Mais. Estamos nos preparando para o alcance destes propósitos, ou seja, não caminhamos à deriva, sem análise.

Questionamos nossas escolhas e nossas vitórias. A memória do já vivido nos fornece diferentes cenários de possíveis consequências de nossas escolhas. O propósito o horizonte a ser cuidadosamente avaliado. Sopesamos prós e contras de nossos objetivos. Vamos acumulando as ferramentas necessárias à concretização destes fins. Somos os arquitetos e os engenheiros de nossos dias.

É esta faculdade de projetar fins, de identificar meios aptos à realização destes fins e de julgar os fins propostos e os meios selecionados para o alcance dos fins à luz da memória das experiências vividas que Aristóteles denomina de razão prática.

Sábio (ou phronimos) é o homem que pensa antes de agir, ou seja, que aprende com o passado e, por isso, no presente evita erros e procura acertos memorizados. É aquele que não deixa o futuro pegá-lo desprevenido, mas elege objetivos a alcançar em conformidade com o que aprendeu pela própria ou pela experiência coletiva ser o melhor para si e busca se munir das ferramentas necessárias ao alcance destes objetivos.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: